Existem muitos lugares decididamente estranhos. Podem variar, é claro, talvez uma pintura diferente, mas são sempre estranhos. É o tipo de lugar em quê você nunca sabe o quê há atrás daquela porta de madeira pesada, ou porque o tapete arrombou a janela e tentou se suicidar. Lugares Mágicos.
Poucos lugares, porém, são mais estranhos que a Mansão Potter. Pra começar sua pintura de estranheza, a Mansão enorme está ali há pelo menos mil anos. Depois, há o fato que ao lugar é cercado por um labirinto de sebes muito verdes, e que ninguém que não é bem-vindo consegue chegar ao centro do labirinto, onde reside a mansão, os jardins, o campo de Quadribol e o galpão de ferramentas, onde em algumas gerações, algum membro da família executava um feitiço errado e o pobre galpãozinho ia pelos ares.
A Mansão Potter sempre contou com sua larga e dourada porta de folha dupla, e com sua fachada pintada de um vermelho bonito, que não doeria os olhos. Nos últimos mil anos, as paredes sempre receberam uma nova camada de tinta por algum Potter de quinze anos. A escada dourada, a cozinha, a sala de jantar, os quartos e os outros diversos cômodos foram tratados com esmero pelos elfos-domésticos, normalmente livres e ganhando um galeão por mês.
Assim a Mansão sobreviveu à guerras, invasões, explosões, fogueiras e filhos endiabrados. Nos últimos duzentos anos, nada de agitado havia acontecido em seu terreno. Até que num adocicado nascer de ano, nasceu o Potter de nome Tiago. Seus pais, Ulisses Potter e Amanda Potter ficaram realmente deliciados e surpresos com sua vinda.
De idade já avançada, o casal Potter já havia perdido as esperanças de um filho. Porém, Tiago nasceu ao mesmo tempo em que sua mãe tivera que usar todas as suas forças para pô-lo ao mundo, o quê ocasionou a triste perda de sua fertilidade remanescente. Tiago era o primeiro e último filho do casal.
Tudo começou na virada do ano, como os Potter bem se lembravam. E era assustadora a certeza que todos os problemas e soluções deram-se início naquele instante.
O choro alto e arfante da vida que nasce encheu a Mansão, e chegou até a biblioteca, onde um homem alto, forte e de cabelos muito negros e muito despenteados andava de um lado para o outro.
Ulisses, meu velho, você vai abrir um buraco no tapete! – Reclamou o segundo homem, que se recostava na poltrona vermelha, defronte à lareira. Neve caia lá fora, e os dois vestiam-se com grossos casacos.
– É a minha mulher e meu filho, Jacob! – Rosnou o moreno. – Se você não fosse um solteirão estúpido, saberia como isso é importante!
– Calma, calma, meu velho! – Riu-se Jacob. – Não está ouvindo estes gritos? O seu bebezinho já está entre nós, e com fome!
Ulisses parou de rodar de um lado para o outro tão rapidamente que tropeçou no tapete e quase caiu no chão de madeira polida. Jacob suspirou, agarrou o amigo pelos ombros e o sentou, bruscamente, numa das poltronas.
– Agora fique calmo! Amanda não precisa de um covarde psicótico!
Ulisses ia realmente se levantar e brigar com o outro, quando a porta da biblioteca se abriu e Hannah McKinnon entrou, com um avental coberto de sangue nas mãos.
– Ulisses, Jacob! Façam o maldito favor de ficarem quietos! – Ela não gritou, mas seu tom foi o suficiente para que os dois se calassem. – Agora, Ulisses, me acompanhe.
Os dois foram rapidamente até o quarto onde Amanda estivera gritando nas últimas horas e entraram. A mulher carregava nos braços uma pequena trouxa, nada mais que uma toalha branquinha envolvendo algo pequeno. Uma mãozinha rosada escapou da toalha ao mesmo tempo em que uma lágrima escapava dos olhos castanhos de Ulisses Potter.
***
Quase onze anos se passaram desde a noite do primeiro dia do ano, e nesse meio tempo a Mansão Potter não mudou, aparentemente. É claro que agora o console da lareira estava recheado de fotos em que seu protagonista se movia. Um garoto de olhos castanhos com um toque de esverdeado, como avelãs, cabelos negros como a noite e muito despenteados e um sorriso maroto. Tiago Potter crescera, e tivera o quê pode se chamar de “infância saudável”. Ele fizera milhares de loucuras e arranjara milhões de confusões, mas ainda faltava algo, afinal.
– Cinco... Quatro... Três... – Murmurava o garoto. – Dois... Um...
BAM!
– CHEGOOOOU! CHEGOOOU! – O berro de alegria precedeu e acompanhou a espetacular descida de Tiago, pulando de três em três degraus escada abaixo. Ele abriu a porta da cozinha num rompante, e viu os cabelos negros com mechas grisalhas do pai. Logo que ele chegou, sua mãe se levantou da mesa e o abraçou.
– Chegou? – Riu Amanda, morena, alta e risonha. A pergunta, visto os gritos enlouquecidos do garoto, era totalmente desnecessária.
– Siiiim! Siiiiiiiiiiiiiiiim! – Os risos, gritos e aplausos encheram a cozinha naquela noite. Tiago estendeu o pergaminho amarelado e sorriu vivamente enquanto os pais liam seu convite de ingresso na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Sim, pois Tiago, Ulisses, Amanda e outros tantos no mundo, eram bruxos. E aos onze anos, Tiago Potter freqüentaria a melhor escola de magia, Hogwarts. Ali ele esperava uma vida que ele não tivera até agora. Queria grandes amigos, grandes aventuras e fantásticas descobertas.
Com um sorriso no rosto, seus pais entregaram-lhe seu presente de aniversário, e ele quase gritou novamente ao ver um belíssimo Pomo de Ouro saltar do pequeno embrulho e o rodear. Com facilidade, Tiago o agarrou, e ficou olhando admirado para a bolinha do tamanho de uma noz.
Ao fim da noite, Tiago foi chamado pelo pai até a Biblioteca da Mansão.
– Filho, você cresceu muito nestes anos – Sorriu o pai, soltando uma baforada do cachimbo que Amanda detestava. – E agora você já é um bruxo. Por isso está pronto para o quê eu vou te contar.
As próximas palavras do pai foram como tiros em sua mente. Ficariam marcadas como tatuagens feitas de fogo em seu cérebro, e ele nunca esqueceria quando o pai lhe mandara revelar o quadro mais antigo dos Potter, que ficava escondido atrás de uma cortina encantada.
Tiago desabou numa cadeira quando as próximas revelações, e explicações, vieram. Sentiu algo doloroso em seu coração. Viu quanta coisa desconhecia, viu quantos problemas e confusões aquilo lhe traria.
– Mas acima de tudo, Tiago... – Suspirou Ulisses, dando a última tragada no cachimbo fedorento. – ...Isso não é um motivo de arrogância. E nem ao menos é um destino, afinal meus tios eram da Lufa-Lufa. Apenas entenda o quê isso significa.
Ele tirou algo do bolso e lhe entregou. Tiago o revirou nas mãos geladas, e sentiu aquilo lhe aquecer.
– Proteja-o, Tiago. Afinal de contas, você agora é o Herdeiro.
– Mas, mas... Não sei o quê fazer! Eu achei que eles já tinham morrido há muito, muito tempo! – Desesperou-se o jovem bruxo.
– Há muita coisa nesse mundo que você desconhece, Tiago. Isso é apenas uma delas. Quanto a o quê você fará... Você saberá como se virar. Apenas tome cuidado para que isso não lhe impeça de viver. É um fardo, ser o Herdeiro, mas nada que nós, Potters, não possamos lidar.
O pai então se dirigiu até a mais afastada prateleira, quase coberta pela escuridão, e trouxe um livro negro, com uma grande fivela de prata impedindo que fosse aberto.
– Mantenha o Registro sempre em dia. Nunca se esqueça da importância disso, como eu te disse. E quando você for o último Potter e precisar de ajuda, não tenha receio em abrir os Registros anteriores.
O cachimbo se apagou, e Ulisses saiu. Tiago abriu o livro e viu que todas as páginas estavam em branco. Olhou a prateleira, e viu o primeiro e mais grosso dos livros. O mais antigo, misterioso, proibido e problemático.
Mantenha o Registro, não deixe que isso lhe suba à cabeça e não conte pra ninguém.
Palavras agourentas.
Mas você vai conseguir, você é o Herdeiro.
Tiago suspirou alto e recolheu suas coisas. Saiu da Biblioteca, e parou na porta, olhando para as velas que lentamente se apagavam sozinhas. Sentiu toda a felicidade que a carta trouxera sumir.
Por fim, bateu a porta e foi para a cama.
O Herdeiro