O silêncio é pior que qualquer coisa.
Passar tanto tempo no silêncio é quase angustiante. Você sente seu peito se comprimir e todos os seus medos se afloram, tomam forma e gosto e cheiro e sentimento. A loucura vêm no silêncio, sussurrante, minúscula, deslizando como uma cobra.
E então, quando você menos espera, a loucura já te dominou, já te dobrou e te transformou em um mero fantoche.
A loucura é companheira do silêncio, amante, dona, mãe. Sinto o silêncio louco e a loucura silenciosa correndo por meus braços, deslizando como água por meu corpo. Minhas veias estão geladas, minha pele está azulada, a cor que prenuncia a morte.
As paredes não têm reboco. Isso é a primeira coisa que você percebe quando chega. É tudo de pedra, tudo gelado. Então você percebe a segunda coisa: o frio é ruim. Chegam as noites, voltam os dias, e você só pensa no frio.
Aí tem a hora em quê você percebe duas coisas, ao mesmo tempo: tudo é muito silencioso.
E o silêncio é pior que qualquer coisa.
A tristeza é como uma seringa, que fincam lentamente na sua pele, até que você não agüenta mais a dor, e sente então o líquido suave percorrer suas veias, e a dor passa. Você morreu. A tristeza se foi, você morreu. Sinto vontade de morrer, todos os dias, todas as noites. Sinto vontade de me matar, sinto vontade de morrer, sinto vontade de gritar. Mas ninguém quebra o silêncio. Ninguém se mata. Você definha, isso sim, e morre.
Estou com tanta vontade de definhar.
Não posso, eu sei que não posso. Não posso morrer, nem definhar, nem me enforcar usando minhas roupas sujas. Existe algo que preciso fazer. Com o tempo eles levam os seus sentimentos, mas não suas metas. Não é esperança, eu sei. É dever, eu DEVO sobreviver, e sair fora.
Eles não conseguem evitar isso. Não sugam os objetivos das pessoas. Aqui ninguém tem um objetivo, além de mim. Eles só sonham com a liberdade, e por sonharem é que morrem logo. Eu não vou morrer, ninguém vai tirar esta certeza de mim.
O quê ficam são as lembranças. Só isso que resta. Lembranças ruins, mas que se você tem um objetivo, podem se tornar boas.
Minha mais forte lembrança é sobre uma época de minha vida. Uma época triste, feliz, louca. As vezes, quando durmo, sonho com rostos felizes, com minha vida anterior. As lágrimas terminaram nos primeiros dias, assim como minha voz. Não vou mais gritar que sou inocente, só vou guardar a certeza dentro de mim. Eu vou sair daqui, e fazer o quê tem que ser feito.
Tem um rosto que nunca me escapa da memória. Ele é mais forte e mais doloroso que todos. Um rosto que só de pensar me dá dor no coração. Um rosto de cabelos negros despenteados.
Nunca em minha vida imaginei amar, ser amado. Se bem que aconteceu. Mas nunca percebi que há diversas formas de amar. E descobri que amava, por fim, o rosto de cabelos negros.
Quando as lembranças chegam, gosto de me sentar à janela. E gosto de imaginar tudo o quê aconteceu.
Quase posso ouvir, agora, os insistentes pedidos de Tiago para sair com a Lily, e os gritos dela em resposta. Posso ouvir as explosões e confusões que os Marotos aprontavam, os uivos de Remo na lua cheia. Posso ouvir a voz de Tiago me dizendo “Hoje eu pego aquela ruivinha”, posso ouvir as páginas dos livros de Remo sendo viradas e o som dos biscoitos sendo estraçalhados pelos dentes de Pedro. Ouço minhas próprias risadas, ouço minhas palavras. E o som da canção que aprendi há tanto tempo, ecoando em tom de gozação graças aos meus amigos.Ouço nossas brincadeiras, armações. Ouço os berros de alegria que Tiago deu quando Lily aceitou sair com ele.
Agora só há o silêncio, a escuridão.
Voltou-me, agora, o rosto de cabelos negros despenteados. Queria tocar aquele rosto de novo, e dizer que estou com ele, mesmo depois de tudo. Queria tanto, que sinto até dor física.
Olhar nos olhinhos verdes e dizer que está tudo bem.
Que tudo vai ficar bem, que estamos em paz. Assim como era nos anos mais felizes de minha vida, antes do silêncio.
Anos Marotos.
sábado, 30 de agosto de 2008
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